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Análise8 min de leitura

Pixinguinha e o hino do Flamengo

Por Thiago Andrade

Pesquisa indica que não há evidências de que Pixinguinha seja autor ou arranjador da introdução do hino do Flamengo.

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Ilustração editorial: estádio com torcida em vermelho e preto, partitura antiga flutuando e notas metálicas — referência a Pixinguinha e hino do Flamengo.

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Pixinguinha e a autoria da introdução: o que a pesquisa diz

A investigação de Paulo Tinoco, destacada pelo Ser Flamengo, aponta para uma conclusão clara e cuidadosamente colocada: não existem, até o momento, documentos que comprovem que Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, foi o autor ou arranjador da introdução metálica que abre a marcha de Lamartine Babo — o trecho que muitos torcedores reconhecem imediatamente nas arquibancadas. Essa ausência de evidência documental é o ponto central da reportagem e deve ser tratada com cautela: a tradição oral e a memória coletiva atribuíram a autoria ao maestro, mas a pesquisa não encontrou partituras, anotações, registros de estúdio ou qualquer prova escrita que confirme essa versão.

Esse é o fato mais relevante e a base para todas as demais interpretações: a versão consagrada pela repetição popular existe, porém falta-lhe respaldo documental conforme a pesquisa apresentada.

Contexto histórico e evolução dos hinos rubro-negros

Antes de Lamartine: o "Hino Rubro-Negro" de Paulo Magalhães

A narrativa atual do repertório do clube precisa ser lida em camadas. Antes da marcha de Lamartine Babo — a canção que hoje domina as arquibancadas — o Flamengo contava com o "Hino Rubro-Negro" de Paulo Magalhães, compositor e atleta do clube. O Museu Flamengo registra a composição em 1918 e a primeira apresentação pública em 15 de novembro de 1920, com aprovação oficial pela Assembleia Geral em 21 de abril de 1921. Ainda que menos presente nas manifestações da torcida contemporânea, essa peça institucional deixou versos que atravessaram gerações, como “Tua glória é lutar” e “Campeão de terra e mar”. A primeira gravação desse hino só ocorreu em 1937, na voz de Castro Barbosa, acompanhado pela Orquestra RCA Victor, o que demonstra um hiato entre sua composição e a consolidação por gravação.

A marcha de Lamartine e a frase que virou juramento

A marcha de Lamartine Babo, surgida na década de 1940, é a música que, na prática, se transformou no hino popular entre os torcedores. Importante destacar que alguns dos versos mais emblemáticos da marcha — notadamente a frase “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo” — já existiam no repertório de oralidades do clube antes de serem incorporados à canção. Segundo a pesquisa, Júlio Silva criou a expressão “Uma vez Flamengo” em outubro de 1929, ampliando-a durante o Carnaval de 1930 para “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. Essa expressão circulou em ambientes do clube e acabou oficializada em documentos posteriores, o que mostra que a letra da marcha não surgiu isolada, mas dialoga com uma tradição pré-existente.

Evidências, lacunas e o método da pesquisa

A investigação conduzida por Tinoco diferencia claramente dois planos: a tradição oral e as fontes documentais. No caso da introdução atribuída a Pixinguinha, a tendência memética — reforçada pela proximidade pessoal e profissional entre Pixinguinha e Lamartine Babo e por registros de colaboração em outros momentos — alimentou a atribuição. No entanto, Tinoco não localizou partituras, anotações de estúdio nem registros que atestem formalmente a autoria do maestro.

A reportagem também indica que uma investigação anterior ouviu o neto de Pixinguinha sobre a possibilidade, mas que essa apuração igualmente não encontrou confirmação documental. Tinoco ressalta explicitamente que a ausência de prova não equivale a prova de ausência: a conclusão atual é baseada na falta de documentação e permanecerá sujeita a revisão caso surja nova evidência.

O caso paralelo do choro "1 a 0"

Um segundo exemplo explorado na reportagem ajuda a ilustrar a fragilidade de narrativas consolidadas sem lastro documental. O choro "1 a 0", geralmente atribuído a Pixinguinha e Benedito Lacerda e associado à conquista sul-americana da Seleção em 1919, apresenta indícios contraditórios. A biografia de Benedito Lacerda ouvida por Tinoco aponta que a música teria sido composta para o jogo Flamengo 1 x 0 Vasco, de 1944, e a primeira evidência material encontrada pelo pesquisador é um disco de 1946. Não foram localizadas, segundo o trabalho, partituras ou notas de jornal que remetam a uma origem em 1919. Esse contraste entre tradição e documentação ilustra o princípio metodológico que orienta a pesquisa: separar memória de arquivo.

Dados e comparações históricas

A própria cronologia mencionada na reportagem revela deslocamentos temporais relevantes: o “Hino Rubro-Negro” de Paulo Magalhães foi composto no fim da década de 1910, registrado pelo Museu Flamengo em 1918, apresentado em 1920 e oficializado em 1921, mas só ganhou registro fonográfico em 1937. A marcha de Lamartine, surgida nas décadas de 1940, acabou por se sobrepor na prática como manifestação sonora predominante. Entre a criação da expressão "Uma vez Flamengo" em 1929 e sua ampliação no Carnaval de 1930 até sua incorporação à marcha, nota-se um processo de assimilação cultural que atravessa pelo menos uma década e meia, conectando atos coletivos e construção simbólica.

Do ponto de vista documental, as lacunas mais nítidas citadas por Tinoco são a ausência de partituras, anotações de estúdio e referências jornalísticas que consolidem a autoria de Pixinguinha sobre a introdução, bem como a posterioridade da documentação encontrada para o choro "1 a 0" (primeiro disco em 1946) em relação às narrativas associadas a 1919.

Análise de impacto para o Flamengo: identidade, memória e patrimônio

A discussão sobre a autoria da introdução do hino não é apenas erudita; toca na construção da identidade sonora do Rubro-Negro e na forma como o clube e sua torcida narram o próprio passado. O hino e a marcha acompanham milhões de torcedores e constituem repertório afetivo que ritualiza a pertença. Atribuir uma autoria a Pixinguinha conecta o Flamengo a uma linhagem musical de prestígio no cânone brasileiro, agregando valor simbólico e cultural. Por outro lado, a ausência de comprovação documental não diminui a centralidade da música na experiência coletiva; o que muda é a correção histórica e a forma de compreender processos de criação coletiva e apropriamento cultural.

Do ponto de vista institucional, os registros do Museu Flamengo já reconhecem o "Hino Rubro-Negro" de Paulo Magalhães e as fontes históricas reconhecem a marcha de Lamartine como a composição de maior popularidade entre os torcedores. A pesquisa de Tinoco, ao problematizar a autoria da introdução, reforça a necessidade de as instituições preservarem e compartilharem arquivos e partituras, além de incentivar abordagens críticas sobre narrativas consolidadas.

Perspectivas e cenários futuros

A investigação abre dois desdobramentos possíveis, ambos mencionados ou sugeridos no tratamento dado pelo pesquisador: primeiro, que novas evidências documentais possam surgir — partituras, anotações, contratos de gravação, ou arquivos particulares — e confirmem a participação de Pixinguinha; segundo, que permaneça o quadro atual, em que a atribuição seguirá como tradição sem comprovação documental. Tinoco é explícito ao apontar que a pesquisa está aberta à revisão diante de provas futuras.

No médio prazo, a discussão pode gerar iniciativas concretas no campo da preservação: levantamento mais sistemático de acervos pessoais ligados a Lamartine Babo e Pixinguinha, digitalização de arquivos de gravadoras e jornais da época e compartilhamento de informações entre museus, arquivos públicos e pesquisadores independentes. Se a busca archival for intensificada, há boa probabilidade de que ocorram avanços — positivos para a história do clube — mesmo que o resultado final seja confirmar apenas a persistência da incerteza.

Comparações metodológicas e lições históricas

A pesquisa exemplifica um ponto clássico da historiografia cultural: a tensão entre oralidade e documentação. Assim como em outros casos de atribuições musicais consolidadas pela memória coletiva, o exercício crítico exige apenas uma prudência: reconhecer o valor afetivo da tradição sem confundi-lo com prova documental. A comparação com o caso do choro "1 a 0" é elucidativa: há uma tendência cultural de conectar composições a eventos memoráveis (uma conquista esportiva, um jogo decisivo), o que facilita a sedimentação de mitos que, sem arquivo, permanecem narrativas plausíveis mas não verificadas.

Conclusão editorial

A investigação de Paulo Tinoco, reportada pelo Ser Flamengo, não derruba a importância nem o valor do hino que embala o Rubro-Negro nas festas e nos estádios. O que ela faz, com rigor e moderação, é cumprir a função central da investigação histórica: diferenciar o que se sabe por prova daquilo que se crê por repetição. Para o torcedor, a música continua a mesma; para o estudioso e para as instituições do clube, a pesquisa representa um convite à revisão crítica e à preservação documental. Em última instância, o caso reforça uma lição prática para a memória esportiva: mitos e tradições são fundamentais para a coesão de uma torcida, mas a consolidação do patrimônio cultural exige curadoria, pesquisa e arquivos abertos.

A pergunta “Pixinguinha fez a introdução do hino do Flamengo?” permanece em aberto em termos de documentação. A atribuição continua presente na memória coletiva, mas, segundo a apuração de Tinoco, sem comprovação documental encontrada até aqui — e com a pesquisa deixando espaço para que novas provas possam vir a alterar esse quadro.

Fonte: Ser Flamengo — https://serflamengo.com.br/pixinguinha-fez-a-introducao-do-hino-do-flamengo-a-pesquisador-esclarece/

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