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Análise8 min de leitura

Flamengo: origem de 'Uma vez Flamengo'

Por Thiago Andrade

Origem de 'Uma vez Flamengo': saiba como Júlio Silva criou o lema, segundo pesquisa de Paulo Tinoco — história essencial para torcedores do Flamengo.

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Ilustração editorial de estádio histórico com faixa antiga 'Uma vez Flamengo, sempre Flamengo', cores rubro-negras e torcida em silhuetas.

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Uma frase, um símbolo: o essencial

A frase "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo" não é apenas um bordão de torcida; é a espinha dorsal simbólica que ajudou a definir o Flamengo enquanto fenômeno social ao longo de quase um século. Segundo a pesquisa de Paulo Tinoco apresentada em entrevista na Brabo TV, cujo conteúdo é reconstituído no texto do Ser Flamengo, a autoria desse lema pertence a Júlio Silva — personagem que, embora fundamental para a construção identitária do clube, permanece relativamente esquecido entre os torcedores. O que começa como um juramento coletivo em outubro de 1929 transforma-se, até 1935, em elemento incorporado formalmente aos documentos do clube. Essa cronologia curta — 1929 (criação), carnaval de 1930 (ampliação pública) e 1935 (incorporação oficial) — é o núcleo factual que permite analisar o processo pelo qual uma frase popular se converte em patrimônio institucional do Rubro-Negro.

Contexto histórico e cenário social

O Flamengo além do campo: remo, carnaval e formação cultural

O Flamengo, desde seus primeiros anos, atuou em várias esferas esportivas e culturais. Tinoco recupera relatos que colocam Júlio Silva observando remadores rubro-negros treinando à noite e saindo da água cantando uma adaptação da composição de Chiquinha Gonzaga: "Ô abre alas que eu quero passar, sou do Flamengo, não posso negar". Esse detalhe é revelador: o sentimento identitário não nasceu exclusivamente do futebol, mas esteve presente nas práticas do remo, esporte que integrou a vida do clube antes da massificação do futebol. A trajetória de Júlio Silva — morador próximo à sede, participante da vida cotidiana das modalidades do clube e, posteriormente, atuante em Vila Isabel onde participou da fundação do Vila Isabel Futebol Clube — situa-o no epicentro das conexões sociais e urbanas que alimentaram a cultura rubro-negra.

Carnaval e sociabilidade: o Bloco do Eu Sozinho (1919)

Antes da consagração do lema que hoje abre o hino popular de Lamartine Babo, Júlio Silva já havia contribuído para a vida cultural do Rio: em 1919 fundou o Bloco do Eu Sozinho, considerado uma das primeiras expressões organizadas do carnaval carioca. Esse fato não é secundário para a análise: o carnaval serviu como vetor de difusão cultural e sociabilidade, fazendo com que identidades coletivas — como a do Flamengo — ultrapassassem os limites dos espaços esportivos e penetrassem nas ruas, nas festas e na música popular. Ao entender o Bloco do Eu Sozinho como precursor dessa ligação entre clube e carnaval, pode-se traçar um fio contínuo entre práticas festivas urbanas e a consolidação de símbolos duradouros.

Linha do tempo: fatos e documentos

  • 1919: Fundação do Bloco do Eu Sozinho por Júlio Silva.
  • Início da década de 1920: Júlio retorna ao Flamengo e passa a atuar diretamente em modalidades como futebol, remo e basquete.
  • Outubro de 1929: Durante evento com jovens atletas das categorias de base, Júlio Silva cria a expressão "Uma vez Flamengo", usada como juramento coletivo entre os participantes.
  • Carnaval de 1930: A frase é ampliada por Júlio — que decora o rink da Rua Paissandu com "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo" — e começa a circular de forma mais ampla entre torcedores e associados.
  • 1935: A expressão passa a constar em documentos oficiais do clube, resultando em incorporação institucional do lema.
  • Anos seguintes: Lamartine Babo abre o hino popular do Flamengo com os versos "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo", consolidando definitivamente a frase no repertório afetivo do clube.

Esses marcos mostram a transição de um gesto local e comunitário para um patrimônio simbólico reconhecido institucionalmente.

Dados, símbolos e persistência histórica

Embora o material pesquisado e relatado por Tinoco não traga estatísticas numéricas tradicionais (como números de sócios, frequência de cânticos por jogo ou medição quantitativa de difusão do lema), há indicadores qualitativos que permitem inferir a força do processo de institucionalização: a frase emergiu em um contexto de práticas cotidianas (treinos de remo, atividades de base), foi elevada a ato público (carnaval de 1930), inserida em documentos oficiais (1935) e, por fim, incorporada ao hino popular composto por Lamartine Babo, veículo de difusão massiva. Cada uma dessas etapas representa um mecanismo diferente de consolidação — do local ao público, do administrativo ao cultural — e a continuidade desse símbolo através do rádio, da era do Maracanã, das conquistas internacionais e da globalização do futebol sinaliza uma resiliência cultural incomum para um lema originado em um juramento juvenil.

Impacto para o Flamengo: identidade, coesão e memória institucional

A importância de Júlio Silva e da criação do lema para o Flamengo não pode ser reduzida à crônica de um momento: trata-se de um elemento fundacional na construção de coesão entre torcedores, atletas e dirigentes. Ao institucionalizar a frase em 1935, a diretoria reconheceu a utilidade simbólica do slogan como ferramenta de lealdade e pertencimento. Essa ferramenta tem efeitos práticos e simbólicos. Praticamente, funciona como mecanismo de identidade coletiva em momentos de crise e celebração, oferecendo uma narrativa de continuidade que ultrapassa ciclos esportivos e administrativas. Simbolicamente, estabelece uma memória compartilhada que, segundo Tinoco, tem uma capacidade de sobrevivência maior do que títulos ou recordes — porque símbolos mobilizam afetos e pertencimento de longo prazo.

Do ponto de vista institucional, a incorporação formal do lema pode ser lida como uma estratégia de construção de marca antes mesmo de existir o conceito moderno de marca esportiva. Ao garantir que a frase passasse a constar em documentos oficiais, o clube criou um pacto entre história e administração: futuras gerações de dirigentes e associados estariam, em tese, já vinculadas a um repertório simbólico que define expectativas de comportamento e identificação. Para o Mengão, essa decisão teve repercussões duradouras na manutenção de um universo simbólico coeso, capaz de resistir a rupturas sociais e transformações no futebol.

Perspectivas e cenários futuros a partir da pesquisa

A reconstituição da trajetória de Júlio Silva, como exposta por Paulo Tinoco em "Flamengo, o Fenômeno Nacional", permite algumas projeções fundadas no próprio conteúdo pesquisado: primeiro, a permanência da frase como núcleo identitário parece provável enquanto o clube mantiver suas tradições culturais. Tinoco destaca que símbolos atravessam gerações — e a adoção do lema por Lamartine Babo e sua circulação em estádios, rádios e celebrações aponta para uma capacidade de reprodução intergeracional que tende a se perpetuar.

Segundo, o reconhecimento público de personagens como Júlio Silva pode alterar a forma como o Flamengo documenta e comunica sua história. A própria pesquisa que resgata essa narrativa sugere que figuras que atuaram além dos gramados — dirigentes, remadores, compositores, torcedores e idealizadores — foram decisivas para transformar o clube em instituição social. Um cenário desejável para a memória institucional seria o reforço de instrumentos de preservação histórica (catalogação de documentos, exposições, inclusão de narrativas em acervos oficiais), que valorizem contribuições simbólicas e culturais além das vitórias esportivas. A reportagem não traz indicações de medidas concretas nesse sentido, mas o argumento implícito é que a memória do Flamengo tem lacunas a serem preenchidas.

Terceiro, a circulação contínua da frase em diferentes mídias e eventos culturais indica que futuros processos de identidade do clube dificilmente prescindirão desse lema. Mesmo com transformações na mídia, na composição social da torcida ou nas estruturas administrativas, a frase possui um papel de ancoragem. Isso sugere que o desafio futuro será administrar a relação entre tradição e inovação: conservar a força do símbolo sem torná-lo retórica vazia.

Limites da pesquisa e caminhos para aprofundamento

A reconstituição feita por Tinoco, conforme relatada, fundamenta-se em documentos e relatos de época, fotografias e episódios específicos. No entanto, a reportagem não traz informações quantitativas sobre a difusão do lema em termos de alcançe demográfico, frequência de uso em eventos ou sua recepção em diversas camadas sociais ao longo do tempo. Tampouco há no texto dados sobre iniciativas institucionais contemporâneas para reconhecer formalmente Júlio Silva. Esses seriam pontos naturais de aprofundamento: medir a penetração do lema em diferentes médias, mapear memórias orais de decanos da torcida e investigar decisões administrativas posteriores para salvar da invisibilidade figuras fundacionais.

Além disso, a conexão com outras pesquisas mencionadas — como a hipótese de que Noel Rosa era torcedor do Flamengo ou a análise sobre o clube como fenômeno nacional — abre um leque de interrogações comparativas que merecem investigação: em que medida a produção cultural associada ao clube (músicas, blocos, composições) atuou como motor de adesão e identidade em comparação com vitórias esportivas? O artigo original aponta caminhos, mas o recorte aqui não permite respostas definitivas.

Conclusão: uma síntese editoral equilibrada

A história reconstituída de Júlio Silva, a origem do Bloco do Eu Sozinho e a criação da frase "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo" ilustram como símbolos culturais podem moldar e perpetuar a identidade de uma instituição esportiva de forma tão potente quanto conquistas em campo. A trajetória — desde observações junto aos remadores, passando pela fundação do bloco em 1919, pelo juramento de 1929, pela exibição carnavalesca de 1930 e pela incorporação aos documentos do clube em 1935, até a consagração musical por Lamartine Babo — é a demonstração de um processo de construção identitária que combina práticas populares, decisões administrativas e circulação cultural. Para o Mengão, a lição é dupla: reconhecer o papel de agentes muitas vezes esquecidos e preservar mecanismos de memória que garantam a relevância desses símbolos para as próximas gerações. A permanência de "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo" ao longo de quase um século é, na prática, a prova mais eloquente da contribuição singular de Júlio Silva à cultura rubro-negra — uma contribuição que transcende estatísticas e se inscreve no campo da memória coletiva.

Fonte: Ser Flamengo — https://serflamengo.com.br/escritor-resgata-a-historia-de-julio-silva-criador-da-frase-uma-vez-flamengo-sempre-flamengo-e-fundador-do-bloco-do-eu-sozinho/

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