Flamengo e a origem do Fla-Flu: o que muda
A informação mais relevante trazida pela pesquisa de Paulo Tinoco, apresentada em entrevista à Brabo TV e destacada no Ser Flamengo, é a revisão substancial das narrativas sobre a gênese do clássico Fla‑Flu e das origens do próprio Flamengo no futebol. Documentos e registros analisados por Tinoco apontam que quatro associados ligados ao Flamengo participaram diretamente da fundação do Fluminense em 1902; que algumas das primeiras reuniões do clube das Laranjeiras ocorreram na sede do Flamengo; que o presidente rubro‑negro Virgílio Leite (presidente do Flamengo em 1911) teve papel ativo na estruturação do Fluminense, inclusive na elaboração do estatuto e na indicação de Oscar Cox à presidência tricolor; e que o Flamengo já disputava partidas de caráter não oficial em 1903 e 1904, antes da formalização do seu departamento de esportes terrestres em dezembro de 1911. Essas evidências, reunidas no capítulo sobre o Fla‑Flu do livro em pré‑venda "Flamengo, o Fenômeno Nacional", reconfiguram a leitura simplista de que o Fluminense seria o "pai do Flamengo".
Contexto e background: a rivalidade como construção histórica
A história do Fla‑Flu é, conforme colocado por Tinoco, um fenômeno que transcende confrontos em campo e envolve elementos culturais, sociais e institucionais. O período analisado — início do século XX, com marcos em 1902, 1903–1904, 1911 e 1925 — corresponde a uma fase em que o ambiente esportivo carioca era reduzido em escala e permeado por forte circulação de dirigentes, atletas e associados entre clubes. Nessa época, modalidades diversas eram praticadas por grupos sociais relativamente próximos, e o que hoje enxergamos como rivalidade intensa ainda estava em processo de construção. A evidência documental sobre encontros realizados na sede do Flamengo para tratar da organização do Fluminense ilustra esse contexto: instituições próximas, pessoas compartilhadas e uma fronteira entre clubes muito menos cristalizada do que no futuro.
Dados e evidências documentais apresentados
Os elementos factuais apresentados na entrevista e no texto do Ser Flamengo que sustentam a revisão histórica são objetivos e verificáveis dentro do material referido:
- Ano de fundação do Fluminense: 1902.
- Presença de quatro associados ligados ao Flamengo entre os fundadores do Fluminense (corrige versões que mencionavam apenas três).
- Registros de partidas disputadas pelo Flamengo já em 1903 e 1904, em caráter não oficial, antecedendo a formalização do departamento de esportes terrestres em dezembro de 1911.
- O episódio de migração de jogadores em 1911 (a chamada "cisão") é reconhecido como real e de grande importância para institucionalizar o futebol no Flamengo; porém, a cronologia e as evidências indicam que o Flamengo já tinha envolvimento prévio com o futebol.
- O papel específico de Virgílio Leite, presidente do Flamengo em 1911, que participou da elaboração do estatuto do Fluminense e na indicação de Oscar Cox para a presidência do clube das Laranjeiras.
- O protagonismo de Alberto Borgerth, remador rubro‑negro que atuava no Fluminense e que se tornou o principal articulador da criação do departamento de futebol do Flamengo em 1911.
- A expressão "Fla‑Flu" ganhou corpo especialmente após a seleção carioca campeã brasileira de 1925, formada majoritariamente por atletas de Flamengo e Fluminense, ainda que o termo aparecesse em registros anteriores.
Esses pontos operam como âncoras factuais para uma leitura que desloca a explicação simplificada do surgimento do Flamengo como derivação direta do Fluminense.
Correções factuais e revisão da narrativa popular
Do ponto de vista historiográfico, a pesquisa de Tinoco promove duas correções importantes. Primeiro, a contagem de quatro rubro‑negros entre os fundadores do Fluminense altera o entendimento sobre o grau de participação daqueles ligados ao Flamengo na gênese do clube das Laranjeiras; não se trata de figuras periféricas, mas de associados que exerceram papéis decisivos na estruturação administrativa do novo clube. Segundo, a narrativa da "cisão de 1911" como ponto zero do futebol rubro‑negro ganha um novo contexto quando se admite atividade futebolística no Flamengo já em 1903–1904 e quando se reinterpreta o papel de Alberto Borgerth: em vez de o Flamengo simplesmente receber um time pronto, o clube teria recuperado um associado que veio a organizar oficialmente uma modalidade que já despertava interesse interno havia anos.
Essa revisão, portanto, não invalida os eventos de 1911 — ao contrário, confirma sua importância institucional —, mas muda a causalidade atribuída por versões populares: não uma origem exclusiva fruto de dissidência tricolor, mas um processo de entrelaçamento institucional e humano entre as duas agremiações.
Virgílio Leite e a interdependência institucional
A figura de Virgílio Leite emerge como símbolo dessa interdependência. Presidente do Flamengo em 1911, Leite atuou também em favor da estruturação do Fluminense, participando da elaboração do estatuto do clube tricolor e indicando Oscar Cox para a presidência. A pesquisa de Tinoco vai além da mera menção: propõe, em tom até bem‑humorado, que a relevância de Virgílio Leite para as Laranjeiras justificaria uma estátua. A importân cia dessa constatação está em mostrar que, nas primeiras décadas do século XX, dirigentes circulavam e colaboravam entre clubes, o que afeta diretamente como se interpreta a origem e o fortalecimento institucional de ambos.
Impactos para o Flamengo (análise)
A reinterpretação documental tem implicações concretas para o Flamengo em diversas frentes. Em primeiro lugar, afeta a narrativa identitária: a noção de que o Flamengo surge exclusivamente como uma derivação do Fluminense perde sustentação histórica; ao mesmo tempo, a identificação de rubro‑negros fundadores e do protagonismo de rubro‑negros na criação do departamento de futebol reforça a autonomia do processo histórico do clube na transição para a prática futebolística. Em termos de memória e cultura interna, evidências como partidas em 1903–1904 ou a atuação de figuras como Alberto Borgerth e Virgílio Leite oferecem material para uma narrativa fundacional mais complexa, menos dependente do episódio único de 1911 e mais alinhada a um quadro de continuidade de práticas esportivas.
Em segundo lugar, a revisão altera o campo da disputa simbólica com o rival. O bordão de arquibancada que afirma que o Fluminense é o "pai do Flamengo" é, segundo Tinoco, mais uma provocação do que uma definição histórica sustentável. Para o Mengão, isso representa uma vitória epistemológica: não se trata de apagar laços ou minimizá‑los, mas de reivindicar uma leitura documentada que reconhece cooperação inicial e circulação de pessoas entre as instituições — um trunfo para uma história institucional que reivindica protagonismo e pluralidade de origens.
Em terceiro lugar, do ponto de vista da historiografia e da comunicação do clube, o material apresentado aponta para oportunidades de resgate documental e de mediação histórica junto às torcidas. A existência de registros sobre atividades futebolísticas anteriores a 1911 e a participação direta de rubro‑negros na fundação do Fluminense aprofundam o repertório de símbolos históricos do Flamengo, sem recorrer a narrativas simplistas.
Perspectivas e cenários futuros (desdobramentos possíveis)
A pesquisa de Tinoco, ao ser publicada e discutida, pode gerar alguns desdobramentos plausíveis indicados pela própria entrevista e pelo tratamento jornalístico no Ser Flamengo:
- Reavaliação acadêmica e popular do papel de indivíduos e eventos-chave: a documentação trazida à luz pode estimular novos estudos que confirmem, refinem ou contestem as conclusões, aprofundando a compreensão sobre a circulação de dirigentes e atletas entre clubes no início do século XX.
- Mudança no discurso das torcidas: se a tese de "pai e filho" perde base documental, as representações de rivalidade podem ganhar contornos mais complexos, baseados em cooperação institucional e convivência histórica, ainda que isso não elimine a intensidade do clássico em termos afetivos e esportivos.
- Crítica e fortalecimento da metodologia histórica aplicada ao futebol: a ênfase de Tinoco em estatutos, atas e registros aponta para uma prática de pesquisa que privilegia fontes primárias e cronologia, estimulando outros pesquisadores a adotarem abordagens similares.
- Ampliação do repertório cultural do Flamengo: a incorporação desses achados em materiais institucionais, publicações e produtos culturais pode alterar como a trajetória do clube é contada a torcedores e ao público em geral.
Nenhum desses cenários está assegurado pelo material apresentado; o que se verifica, contudo, é que a divulgação de evidências documentais tende a deslocar a disputa para o campo da historiografia, em que argumentos precisam ser sustentados por fontes.
Comparações históricas e leituras analíticas
Comparar a narrativa tradicional com a reavaliação proposta por Tinoco revela diferenças metodológicas e interpretativas. A versão popular foca em eventos simbólicos — a cisão de 1911 como evento fundador — e tende a simplificar causalidades; a pesquisa documental prioriza cronologia e participação institucional anterior, incorporando elementos que mostram continuidade e reciprocidade. Essa tensão entre narrativa simbólica e narrativa documental não é exclusiva do futebol: é característica de processos históricos em que identidades coletivas se constroem tanto por eventos fundadores quanto por memórias construídas na esfera pública. No caso do Fla‑Flu, entender a origem como um processo atravessado por cooperação e movimentos de pessoas entre clubes diminui a linearidade da narrativa de origem e abre espaço para uma história mais relacional.
Conclusão editorial
A investigação de Paulo Tinoco, reunida no capítulo dedicado ao Fla‑Flu em seu livro "Flamengo, o Fenômeno Nacional", oferece mais do que correções factuais: propõe uma mudança de paradigma sobre como ler as origens do Flamengo e a formação do clássico com o Fluminense. Ao demonstrar a participação de quatro rubro‑negros na fundação do Fluminense (1902), a ocorrência de reuniões na sede do Flamengo, evidências de partidas rubro‑negras em 1903–1904 e o papel ativo de figuras como Virgílio Leite e Alberto Borgerth, a pesquisa desloca a narrativa reducionista que transforma o Fluminense no "pai do Flamengo" para uma compreensão de maior interdependência institucional e sociabilidade entre clubes. Para o Mengão, esse reposicionamento não apenas reafirma protagonismo histórico como também convida a torcida e a direção a cultivarem uma memória mais documentada e menos acrítica.
A rivalidade, é claro, continuará alimentada por emoções e símbolos; mas a história do Fla‑Flu, como mostram os documentos, é rica em nuances e compartilhamentos — um patrimônio que merece ser conhecido com a precisão que fontes primárias permitem. A divulgação desse tipo de pesquisa tende a elevar o nível do debate entre torcedores, historiadores e jornalistas, deslocando provocações de arquibancada para investigações baseadas em evidências.
Fonte
Fonte: Ser Flamengo — https://serflamengo.com.br/quem-e-pai-de-quem-livro-resgata-a-participacao-importante-de-quatro-rubro-negros-na-criacao-do-fluminense/
