Benito di Paula morre aos 84 e deixa registro do Flamengo na música
Morreu na noite de domingo, 18 de outubro de 2026, Benito di Paula, aos 84 anos, em São Paulo, vítima de complicações de um câncer de próstata contra o qual lutava havia cerca de um ano. A dimensão do fato — o fim de uma trajetória musical que atravessou mais de cinco décadas — tem eco particular para o Flamengo: Benito não apenas participou do cânone da música popular brasileira a partir dos anos 1970 como também incorporou o clube e sua torcida em composições que se tornaram memórias afetivas para gerações de rubro-negros. A menção explícita ao Flamengo em canções de grande alcance, especialmente em “Charlie Brown”, colocou a torcida na narrativa cultural do país e cria um traço de memória coletiva que se projeta além dos estádios.
Contexto biográfico e artístico
Nascido Uday Vellozo em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1941, Benito construiu uma identidade artística marcada pelo piano e por uma interpretação que aproximou o samba de arranjos românticos. Reconhecido nacionalmente nos anos 1970, o artista ganhou projeção com canções como “Retalhos de Cetim” (1973), que ajudou a consolidar sua assinatura estética — uma batida percussiva ao piano, voz intensa e letras que dialogavam com o cotidiano. Sua obra se estendeu por dezenas de álbuns e por parcerias, inclusive com o filho Rodrigo Vellozo.
Benito preferia ser visto como “sambeiro” em vez do rótulo que a imprensa lhe atribuiu — “samba-jóia”. Essa distinção é relevante para compreender como o artista negociou tradição e inovação: manteve relações com raízes populares ao mesmo tempo em que introduziu uma estética própria, capaz de alcançar grandes públicos e provocar resistências em setores que defendiam padrões mais ortodoxos do samba.
O samba, o piano e a projeção pública
A combinação entre samba e piano foi elemento central da carreira de Benito. Essa assinatura tornou possível uma interlocução ampla com plateias diversas e permitiu que canções suas, como “Charlie Brown”, trafegassem em contextos além dos nichos musicais — inclusive no imaginário futebolístico do Brasil. A presença continuada nos palcos até o fim da vida — sua última apresentação pública ocorreu no fim de julho de 2026, em São Paulo, ao lado do filho — demonstra que a carreira teve persistência e renovação, não se restringindo ao auge comercial das décadas anteriores.
A menção ao Flamengo nas canções: registro e repercussão
Entre os traços que ligam Benito ao Flamengo está a inclusão explícita da torcida rubro-negra em “Charlie Brown”, canção lançada na década de 1970 que se tornou um dos grandes sucessos do compositor. Inspirada pelo personagem criado por Charles Schulz, a composição apresenta o Brasil por meio de referências culturais e regionais, e insere o Flamengo como uma figura de admiração: a torcida é descrita como incomparável. Não se trata de uma menção periférica; dentro da construção da música, o clube integra um retrato afetivo do país, ao lado de artistas e símbolos culturais, o que coloca o Flamengo na geografia emotiva da nação retratada pela canção.
Segundo o levantamento do pesquisador Paulo Tinoco, do projeto Flamúsica, Benito citou o Flamengo em três oportunidades ao longo da carreira: “Meu Brasil, Meu Doce Amado” (1976), “Vamos Cantar” (1979) e “Charlie Brown” (década de 1970). Esse registro acadêmico reforça que a presença do clube na obra de Benito não é um evento isolado, mas um elemento recorrente em diferentes momentos artísticos. Ao atravessar obras de épocas distintas, a referência ao Flamengo se naturaliza como parte da poética do compositor.
Impacto cultural para o Flamengo e para a torcida
A inclusão do Flamengo na obra de Benito di Paula tem implicações simbólicas importantes. Primeiro, contribui para a constituição de uma memória cultural que conecta a torcida a expressões artísticas de larga difusão. Quando uma canção de grande sucesso incorpora a figura do clube, ela circula para além dos recintos futebolísticos — atinge rádios, shows, celebrações e eventos culturais — e, com isso, amplia o alcance simbólico da torcida. Para o Rubro-Negro, a intervenção de Benito significa a presença do clube em um repertório afetivo nacional.
Segundo, a recorrência da menção ao Flamengo em diferentes faixas do repertório aponta para uma construção de identidade que se renova gerações. Já que “Charlie Brown” ganhou diferentes gravações e permaneceu entre as obras mais lembradas do artista, a referência ao Flamengo foi repetida e assimilada por públicos que consumiram a música em momentos distintos. Essa repetição cultural tende a fortalecer laços de pertencimento: torcedores de idades variadas podem reconhecer na música um elemento de sua própria experiência do clube.
Terceiro, ao integrar o Flamengo numa narrativa afetiva do Brasil, Benito colocou a torcida em uma posição de interlocutora nacional. Isso é relevante porque desloca o clube de uma mera esfera esportiva para o campo da cultura popular: a admiração pela torcida passa a ser também uma afirmação de presença cultural do Rubro-Negro no imaginário brasileiro.
Comparações históricas e posicionamento estético
A trajetória de Benito — seu diálogo com o samba tradicional, a adoção de arranjos românticos e a centralidade do piano — pode ser lida, do ponto de vista cultural, como um exemplo de como artistas conseguem incorporar símbolos futebolísticos em linguagens musicais não necessariamente partidarizadas ao esporte. Ao contrário de manifestações efêmeras associadas a um jogo ou a um evento específico, as referências de Benito se inserem em canções com alcance nacional, construídas para durar no repertório popular.
O que distingue Benito, em termos históricos, é a capacidade de transpor a torcida para um contexto estético que dialoga com o sentimento romântico e com o cotidiano, sem perder a raiz popular do samba. Essa operação estética permite que o Flamengo seja percebido não apenas como potência esportiva, mas como componente afetivo de uma narrativa cultural mais ampla.
Homenagens e continuidade da obra
A relação entre Benito e a cultura popular foi reconhecida em diferentes instâncias: em 2025, a escola de samba Águia de Ouro, de São Paulo, homenageou o músico com um enredo inspirado em sua obra. O fato ilustra como a produção de Benito ultrapassou fronteiras regionais e encontrou lugar de destaque em manifestações carnavalescas, reafirmando seu impacto cultural. A continuidade de sua trajetória artística, marcada por parcerias com o filho Rodrigo Vellozo e por apresentações até meados de 2026, indica que o trabalho do compositor permaneceu vivo e em circulação até pouco antes de seu falecimento.
A memória rubro-negra e o papel das canções
Para muitos torcedores, futebol e música se entrelaçam na experiência de acompanhar o clube. A obra de Benito oferece um exemplo claro desse entrelaçamento: a menção ao Flamengo em “Charlie Brown” funciona como um selo de reconhecimento cultural. Ao levar a torcida para uma canção que extrapola o circuito esportivo, Benito contribuiu, de forma duradoura, para a afirmação simbólica do clube.
Além disso, a inclusão do Flamengo em canções que se tornaram parte do repertório coletivo ajuda a sedimentar uma narrativa de identidade que atravessa gerações. Quando músicas gravadas nos anos 1970 continuam sendo cantadas, regravadas e lembradas, elas produzem uma continuidade afetiva que toca torcedores que viveram diferentes episódios da história do clube.
Conclusão: síntese analítica
A morte de Benito di Paula encerra uma trajetória artística relevante para a música brasileira e oferece ao Flamengo uma memória cultural incorporada à obra de um artista que dialogou com o país. A presença do clube em canções de grande circulação — documentada pelo levantamento de Paulo Tinoco — não é um detalhe periférico, mas um elemento reiterado que integrou a torcida rubro-negra ao repertório afetivo nacional. Em termos simbólicos, Benito transformou a torcida do Flamengo em sinal de reconhecimento cultural, inscrito em melodias que permaneceram ativas por décadas.
Ao analisar o legado, é possível afirmar que a importância do compositor para o clube reside menos em um gesto isolado de celebração e mais na construção de uma presença contínua: múltiplas canções, gravações e reinterpretações que mantiveram o Flamengo em circulação cultural. Para o Mengão, esse tipo de registro tem um valor específico — reforça a dimensão cultural e emocional da torcida e amplia o espectro em que o nome do clube é pronunciado. A memória que fica, portanto, pertence tanto à obra musical quanto à comunidade de torcedores que nela se reconheceu.
Fonte: Ser Flamengo — https://serflamengo.com.br/morre-benito-di-paula-veja-como-o-artista-cantou-o-flamengo-em-sua-obra-musical/
